Em um clássico que exigiu reação, paciência e resistência, o Santos virou diante do São Paulo e mostrou que ainda sabe encontrar forças quando a partida parece caminhar para outro lado.
Calma.
No dicionário, essa palavra significa a ausência de agitação, um estado de tranquilidade física ou mental. Serenidade, tranquilidade, paz e paciência. São sinônimos para essa palavrinha de apenas cinco letras que poderia representar facilmente o pedido de Gabriel Barbosa após o gol de empate contra o São Paulo.
O jogo da 21ª rodada do Campeonato Brasileiro carregava pontos importantes para as duas equipes. Para o Santos, era a chance de bater na casa dos 40 pontos e começar a levar a sério o pensamento de “brigar por uma vaga na Libertadores”. Para o São Paulo, seriam três pontos de um alívio momentâneo, capazes de afastar um pouco os problemas recentes que a equipe vem enfrentando.
E o São Paulo tinha tudo para fazer daquela noite a melhor para sua torcida. Jogava em casa, no Morumbi, com o apoio de seus torcedores. O São Paulo, aliás, utilizou uma antecipação de receita com a Ticketmaster para quitar um mês de direitos de imagem que estava em atraso com os jogadores. O Santos também efetuou pagamentos para amenizar pendências financeiras com seu grupo de atletas.
Qual dos dois entraria mais motivado? Se é que é possível precisar de motivação a mais além do simples fato de ser um clássico de tamanho peso.
O jogo começou antes mesmo de a bola rolar. As duas equipes precisaram fazer alterações no time titular. Do lado santista, Rollheiser ficou de fora por conta de uma indisposição estomacal, dando lugar a Lima. Já do lado são-paulino, quem ficou de fora foi o goleiro Rafael, devido a um problema na coluna lombar, dando lugar a Coronel.
Quando a bola finalmente rolou, o jogo começou eletrizante. Ambos buscaram aproveitar o descanso que a Data FIFA proporcionou para buscar o resultado no confronto. Mas o São Paulo foi superior. Assustou mais desde o primeiro minuto e, em um pênalti de Verissimo em cima de Ryan Francisco, Luciano converteu e colocou o Tricolor na frente.
Parecia o momento em que o Santos precisaria encontrar uma resposta. E encontrou.
A empolgação e a comemoração dos donos da casa não duraram muito. Em menos de dois minutos, Cebolinha acionou Escobar, que cruzou e encontrou Gabriel Barbosa na área. Numa tacada de sinuca, o atacante cabeceou para o fundo das redes.
O jogo estava empatado novamente. Era a primeira demonstração de que aquele Santos não pretendia aceitar passivamente o que a partida lhe apresentava. Sofreu o golpe, mas respondeu. Não demorou para transformar a desvantagem em um novo começo.
O segundo tempo trouxe consigo alterações e estreia. Gustavinho entrou no lugar de Lima, que não vinha fazendo uma boa partida, e Philippe Coutinho estreou. Estreou da melhor forma possível para um jogador que ainda está encontrando seu ritmo de jogo novamente.
Ele recebeu a bola de Oliva, dominou girando e escapando da marcação para dar um passe magistral, desmontar a defesa são-paulina e encontrar Cebolinha, que, por sua vez, achou Gabriel Barbosa, o artilheiro da noite. Gabriel driblou a marcação e mandou para as redes. O gol da virada e do alívio santista.
O São Paulo viu seu time cansar. Terminou o jogo com cinco substituições e três jogadores cansados em campo. Luciano já não conseguia andar e se arrastava pelo campo. Mas, mesmo assim, o São Paulo não desistiu. Continuou criando chances, buscando o empate a todo custo.
E foi nessas investidas que Diógenes apareceu. Apareceu para se redimir do erro do último jogo e fechou o gol. Mesmo após uma linda jogada de Artur, que bateu colocado, ele pulou e resvalou na bola, fazendo-a ir para fora. E, em uma bomba de Danielzinho, ele se esticou todo para pegar.
O Santos já havia reagido duas vezes: primeiro, ao gol sofrido; depois, à pressão que veio após a virada. E talvez seja justamente aí que esteja a maior força dessa partida.
No início do jogo, quando o São Paulo veio para cima, o Santos teve calma. Quando o São Paulo abriu o marcador, o Santos teve calma. Quando o segundo tempo começou e Coutinho entrou, o Santos teve calma. Quando encontrou a oportunidade para virar, o Santos teve calma. E, depois da virada, até os minutos finais da partida, tendo que segurar o resultado, o Santos teve calma.

Mas calma não significa passividade. Calma também pode ser reação. É saber que o jogo ainda está acontecendo quando o adversário marca primeiro. É conseguir levantar a cabeça depois de sofrer um golpe. É encontrar uma jogada, um passe, um espaço, um gol. É entender que uma partida pode mudar de direção em poucos minutos, desde que você continue jogando.
Calma definiu o time do Santos nessa partida. Calma definiu o time do Santos nas últimas partidas do Campeonato Brasileiro até aqui.
O Santos brigava para se manter fora do Z4, tinha uma sequência tenebrosa de jogos e via seu principal jogador, Neymar, se ausentar no departamento médico. Mas, mesmo com tudo caminhando contra e com todos dizendo que o Santos não sobreviveria aos últimos jogos, o Santos manteve a calma, jogou bola e continua vivo.
Agora, brigando até por uma vaga na Libertadores. Na parte de cima da tabela.
A virada em um clássico fora de casa nos mostra que ainda teremos altos e baixos no campeonato e dentro de uma única partida. Mas também mostra outra coisa: este Santos aprendeu a reagir.
Sobreviver é exatamente isso. Não é nunca sofrer um gol ou nunca ser pressionado ou nunca ter um momento ruim. E, sim, saber reagir quando esses momentos chegam.
Daqui até o resto da temporada, só resta uma coisa a pedir: calma!
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